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Reposição hormonal na menopausa: o que mudou e a dieta

Reposição hormonal na menopausa: o que mudou na bula nos EUA, o que a Febrasgo orienta e como a alimentação ajuda a cuidar de músculo, osso e metabolismo.

Vinícius Graton · CRN-9 9877Publicado em · 11 min de leituraConteúdo informativo, escrito por nutricionista.
Mesa de café da manhã com iogurte natural e aveia, ovos, pão integral, frutas, copo de leite e castanhas

Resumo direto: Em novembro de 2025, a FDA orientou a retirada dos alertas de caixa preta da terapia hormonal da menopausa, e o tema voltou ao debate. A decisão de usar ou não é da ginecologista e depende de avaliação individual. A alimentação não substitui a terapia, mas ajuda a cuidar de músculo, osso e metabolismo, com ou sem hormônio.

Se você está na perimenopausa ou na menopausa, provavelmente já ouviu três versões ao mesmo tempo: que hormônio faz mal, que hormônio é a solução de tudo e que dá para resolver com chá e dieta. A notícia da mudança nos Estados Unidos reacendeu essa confusão. Este texto organiza o que as fontes confiáveis dizem, sem exageros, e mostra onde a alimentação realmente entra.

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou nutricional. Aqui não há indicação de hormônio, de dose nem de produto: iniciar, parar ou trocar qualquer medicamento é decisão da sua médica. O que cabe a uma nutricionista é cuidar do prato, do músculo, do osso e dos exames metabólicos ao longo dessa fase.

O que mudou na bula nos Estados Unidos

Durante mais de 20 anos, os produtos de terapia hormonal da menopausa carregaram nos Estados Unidos um alerta de caixa preta, aplicado de forma ampla a todas as doses, formulações e vias de administração. Esse alerta nasceu a partir de resultados do estudo Women's Health Initiative (WHI), feito com um tipo específico de estrogênio oral combinado a um progestágeno, em mulheres que, em média, já tinham passado dos 60 anos.

Segundo o relato de integrantes do painel publicado na revista Menopause, a FDA reuniu um painel de especialistas em 17 de julho de 2025, abriu um período de 60 dias para comentários públicos e fez uma revisão independente da literatura. Em 10 de novembro de 2025, recomendou a retirada dos alertas de caixa preta das terapias com estrogênio, com ressalvas específicas. O painel destacou diferenças entre estrogênio sistêmico e estrogênio vaginal local, entre estrogênio isolado e combinado a diferentes progestágenos, e a importância da formulação, da via, da dose e do momento de começar.

Uma análise publicada na revista Obstetrics and Gynecology descreve três mudanças práticas: rótulos específicos por produto, fim da orientação genérica de usar a menor dose pelo menor tempo e inclusão de orientação sobre o momento de início, em até 10 anos da menopausa ou antes dos 60 anos. A reportagem da Pesquisa FAPESP, publicada em março de 2026, acrescenta um detalhe importante: o alerta sobre câncer de endométrio foi mantido nos produtos somente com estrogênio.

A decisão americana é de 10 de novembro de 2025. O que veio em 2026 foi a repercussão, com artigos científicos e reportagens no mundo e no Brasil.

O que a decisão não significa

Retirar um alerta de caixa preta não transforma a terapia hormonal em tratamento para todas. Significa que a agência passou a considerar o risco de forma mais detalhada, por produto e por perfil. Quem avalia indicação, contraindicação, dose, via e duração continua sendo a ginecologista, com exames e histórico pessoal e familiar. Também não significa que a mudança tenha efeito automático nas bulas brasileiras: a decisão é da agência americana. As fontes citadas neste texto não registram mudança equivalente nas bulas brasileiras, então vale perguntar à sua médica o que vale por aqui. Posicionamentos da Anvisa e da Febrasgo podem surgir depois da data deste texto: confira na fonte oficial; informação de novembro de 2026.

Para dar proporção ao debate, o estudo WHI foi reanalisado em seguimento longo. A publicação do JAMA de 2017 acompanhou 27.347 mulheres, com idade média de 63 anos no início, por 18 anos e não encontrou associação do uso de terapia hormonal por tempo limitado, durante os estudos, com mortalidade geral: a razão de risco foi 0,99 (intervalo de confiança de 95% de 0,94 a 1,03) no conjunto das mulheres. Esse resultado trata de mortalidade e do estrogênio conjugado oral, com ou sem acetato de medroxiprogesterona, usado nesses estudos; não prova que a terapia seja segura para todas. Segundo a Pesquisa FAPESP, nas análises do WHI a combinação de estrogênio com progestágeno aumentou, durante o tratamento, o risco de câncer de mama e de AVC, e a NAMS cita maior risco absoluto de doença coronariana, AVC, trombose e demência quando o início é tardio. A pergunta individual de cada paciente depende de idade, tempo de menopausa, tipo de terapia e histórico de saúde.

O que a Febrasgo e as diretrizes dizem

Segundo a Pesquisa FAPESP, a Febrasgo recomenda a terapia hormonal para mulheres com sintomas vasomotores (ondas de calor e suores noturnos) de moderados a intensos, com menopausa há menos de 10 anos e sem contraindicações. É uma posição próxima à da Sociedade Norte-Americana de Menopausa (NAMS) de 2022: a terapia continua sendo o tratamento mais eficaz para esses sintomas e para a síndrome geniturinária da menopausa, e mostrou prevenir perda óssea e fraturas. A mesma posição afirma que os riscos variam conforme tipo, dose, duração, via, momento de início e uso de progestágeno, e que o tratamento deve ser individualizado e reavaliado de tempos em tempos.

A NAMS também diz que, para mulheres com menos de 60 anos ou dentro de 10 anos do início da menopausa e sem contraindicações, a relação entre benefício e risco é favorável para sintomas vasomotores incômodos e prevenção de perda óssea. Quando o início é mais tardio, a relação parece menos favorável pelo maior risco absoluto de problemas no coração, derrame, trombose e demência. Em resumo: o mesmo remédio pode ter um perfil diferente em duas mulheres, e é por isso que o assunto não cabe em manchete.

E os hormônios manipulados? Este texto não avalia esse tema e não faz afirmações sobre eles. Se a sua médica prescrever uma formulação, pergunte sobre a origem, o controle de qualidade e o acompanhamento que ela recomenda.

Qual é o papel da alimentação

A alimentação não faz o papel do hormônio nas ondas de calor. A posição de 2023 da NAMS sobre tratamentos sem hormônio avaliou vários recursos: recomendou, entre outros, terapia cognitivo-comportamental, hipnose clínica e alguns medicamentos, além de perda de peso (evidência de nível II a III). Por outro lado, não recomendou suplementos e fitoterápicos, soja e derivados de soja, e classificou a modificação alimentar como não recomendada para as ondas de calor, com nível III de evidência. Ou seja, nessa avaliação nenhuma dieta, suplemento ou fitoterápico substitui a terapia hormonal para as ondas de calor.

O que a comida faz bem é cuidar do que muda no corpo nessa fase. Uma revisão da revista Nutrients (Erdélyi e colaboradores) resume que a menopausa se associa a mais obesidade, síndrome metabólica, doença cardiovascular e osteoporose, e que fatores alimentares podem melhorar esses riscos, com acompanhamento de nutricionista como parte do tratamento. O consenso da ESCEO lembra que, a partir dos 50 anos, a mulher tem risco maior de sarcopenia (perda de massa e força muscular) e osteoporose, e que hábitos saudáveis podem atenuar esse risco, ao lado da terapia hormonal quando for apropriada. Ou seja, as duas frentes se somam, nenhuma anula a outra.

Proteína e músculo

O consenso da ESCEO recomenda para mulheres na pós-menopausa de 1,0 a 1,2 g de proteína por quilo de peso ao dia, com pelo menos 20 a 25 g de proteína de boa qualidade em cada refeição principal, e proteína perto do treino. Na prática, isso significa distribuir a proteína no dia, e não concentrar tudo no jantar. Quem tem doença nos rins precisa de orientação médica antes de aumentar proteína. Se quiser entender melhor, veja Menopausa e ganho de peso: proteína ajuda?.

Cálcio, vitamina D e osso

O mesmo consenso cita ingestão de cálcio de 1.000 mg ao dia e vitamina D de 800 UI ao dia, para manter os níveis sanguíneos acima de 50 nmol/L, junto de atividade física regular de 3 a 5 vezes por semana. Uma metanálise de ensaios clínicos da National Osteoporosis Foundation, feita com adultos de meia-idade e idosos (não só mulheres na menopausa), encontrou redução de 15% no risco de fraturas totais e de 30% no de fraturas de quadril com cálcio mais vitamina D em suplemento. Suplemento, no entanto, é prescrição: a vitamina D deve ser avaliada por exame, a dose é definida pelo médico, e o excesso de cálcio ou de vitamina D pode fazer mal. Na comida, o caminho é leite e derivados, ou alternativas enriquecidas, folhas escuras como couve, peixes com espinha e leguminosas. Veja também saúde da mulher e menopausa.

Fibras, açúcar no sangue e coração

Segundo a revisão de Erdélyi e colaboradores, a menopausa se associa a mais obesidade e síndrome metabólica, e hábitos de vida, incluindo a alimentação, podem reduzir o risco de resistência à insulina e de diabetes tipo 2. Fibras de feijão, lentilha, aveia, frutas com casca e verduras fazem parte desse cuidado. Quem tem histórico de obstrução ou estreitamento intestinal deve falar com o médico antes de aumentar fibras, e o aumento deve ser gradual, com água. Se o seu caso envolve glicemia alta, veja Resistência à insulina: o que comer, e para calcular sua rotina use as ferramentas do site.

Exemplo de um dia alimentar

Este é um exemplo ilustrativo, com porções caseiras, para uma mulher saudável. Não é prescrição: as quantidades dependem de peso, treino, exames e preferências, e o plano real é montado em consulta.

  • Café da manhã: 1 copo de leite ou 1 pote de iogurte natural, 2 ovos mexidos, 1 fatia de pão integral e 1 fruta. Alternativa: mingau proteico de aveia.
  • Lanche da manhã: 1 punhado pequeno de castanhas e 1 fruta.
  • Almoço: metade do prato de salada e legumes, 1 filé médio de frango, peixe ou carne magra, 4 colheres de sopa de arroz, 1 concha de feijão e 1 porção de couve refogada. Uma opção prática é o frango desfiado com ervas.
  • Lanche da tarde: 1 pote de iogurte natural com 2 colheres de sopa de aveia.
  • Jantar: omelete com legumes ou sopa de legumes com carne desfiada, e 1 fruta de sobremesa.

Repare que há uma fonte de proteína nas refeições principais, cálcio em pelo menos duas refeições e fibras ao longo do dia. Se essas quantidades bastam para você, depende de peso, exames e avaliação individual. Água ao longo do dia e treino de força, com liberação médica, completam o plano.

Erros comuns nessa fase

  • Cortar carboidrato e proteína ao mesmo tempo para emagrecer rápido, o que pode custar músculo.
  • Comprar suplemento ou chá prometendo substituir o hormônio, sem respaldo.
  • Usar a notícia dos Estados Unidos como autorização para começar ou parar um tratamento por conta própria.
  • Deixar de fazer exames de rotina (glicemia, colesterol, densidade óssea) porque está usando ou não está usando hormônio.

Sinais de alerta

Procure um pronto atendimento ou ligue para o SAMU, 192, se tiver: dor de cabeça súbita e muito forte, dor ou aperto no peito, falta de ar súbita, fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, dificuldade para falar, perda súbita de visão, dor forte e inchaço com vermelhidão em uma perna, ou sangramento vaginal muito intenso.

Avise a sua médica o quanto antes, sem esperar a próxima consulta, se tiver: sangramento vaginal depois da menopausa, nódulo ou alteração na mama, dor de cabeça nova ou diferente do habitual, perda de peso sem explicação, dor óssea ou queda, ondas de calor que atrapalham o sono e a rotina, ou dúvidas sobre o seu tratamento.

Se você tem diabetes e usa insulina ou sulfonilureia, qualquer mudança de alimentação, jejum ou dieta restritiva pode causar hipoglicemia (suor frio, tremor, fome súbita, confusão). Fale com o seu médico antes de mudar a rotina alimentar. O ajuste de medicamento é sempre dele.

Referências

  1. Zorzetto R, Soares G. Reavaliação dos EUA e novos estudos podem reduzir o medo da reposição hormonal na menopausa. Pesquisa FAPESP, edição 361, março de 2026. Pesquisa FAPESP.
  2. Pinkerton JV, Simon JA, Hodis HN, et al. Report of the FDA's expert panel on hormone therapy. Menopause, 2026;33(10):1118-1126. PubMed.
  3. Sriprasert I, Hodis HN, Mack WJ, et al. Elimination of the Black Box Warning on Menopausal Hormone Therapy. Obstet Gynecol, 2026;147(5):642-646. PubMed.
  4. The 2022 hormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause, 2022;29(7):767-794. PubMed.
  5. The 2023 nonhormone therapy position statement of The North American Menopause Society. Menopause, 2023;30(6):573-590. PubMed.
  6. Manson JE, Aragaki AK, Rossouw JE, et al. Menopausal Hormone Therapy and Long-term All-Cause and Cause-Specific Mortality: The Women's Health Initiative Randomized Trials. JAMA, 2017;318(10):927-938. PubMed.
  7. Rizzoli R, Stevenson JC, Bauer JM, et al. The role of dietary protein and vitamin D in maintaining musculoskeletal health in postmenopausal women: a consensus statement from the ESCEO. Maturitas, 2014;79(1):122-132. PubMed.
  8. Erdélyi A, Pálfi E, Tűű L, et al. The Importance of Nutrition in Menopause and Perimenopause: A Review. Nutrients, 2023;16(1):27. PubMed.
  9. Weaver CM, Alexander DD, Boushey CJ, et al. Calcium plus vitamin D supplementation and risk of fractures: an updated meta-analysis from the National Osteoporosis Foundation. Osteoporos Int, 2016;27(1):367-376. PubMed.

Quer um plano alimentar pensado para o seu caso na menopausa, com acompanhamento de músculo, osso e exames? Agende uma teleconsulta e receba o plano na área do paciente, em até 7 dias (ou até 15 dias se precisar fazer exames). Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou nutricional.

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Vinícius Graton · CRN-9 9877

Perguntas frequentes

A FDA liberou a reposição hormonal para todas as mulheres?

Não. Em novembro de 2025 a agência americana orientou a retirada dos alertas de caixa preta e passou a tratar cada produto de forma específica, com a indicação de iniciar em até 10 anos da menopausa ou antes dos 60 anos. Quem pode usar e qual produto é decisão individual da ginecologista.

A mudança nos Estados Unidos vale para o Brasil?

A decisão é da agência americana e vale para os produtos de lá, mas repercutiu no mundo todo. No Brasil, a referência continua sendo a avaliação da ginecologista, com base em diretrizes como a da Febrasgo. As fontes citadas neste texto não registram mudança equivalente de bula no país, então pergunte à sua médica e confira na fonte oficial; informação de novembro de 2026.

Alimentação substitui a reposição hormonal?

Não. A terapia hormonal é uma decisão médica com benefícios e riscos individuais. A alimentação cuida de músculo, osso, coração e açúcar no sangue, com ou sem terapia, mas a NAMS não recomendou mudança alimentar nem suplementos e fitoterápicos para as ondas de calor.

Soja, suplemento ou chá natural funcionam como alternativa?

Segundo a posição de 2023 da NAMS, soja, derivados de soja, suplementos e fitoterápicos não são recomendados para as ondas de calor. Suplementos e fitoterápicos podem interagir com medicamentos e nem sempre são seguros para todas, então avise a médica antes de usar qualquer produto.

Quanto de proteína e de cálcio comer na menopausa?

Depende de avaliação individual. O consenso da ESCEO cita 1,0 a 1,2 g de proteína por quilo de peso ao dia, com 20 a 25 g nas refeições principais, e cálcio de 1.000 mg ao dia. Quem tem doença nos rins deve seguir a orientação do médico antes de aumentar proteína.

Quem usa terapia hormonal precisa cuidar da alimentação?

Sim. A terapia não faz o trabalho do prato nem do treino. Proteína, cálcio, fibras e acompanhamento de glicemia e colesterol continuam importantes, e o plano é ajustado ao seu caso junto com a equipe médica.

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