Exames da mulher acima de 40 anos: o que conversar
Exames da mulher acima de 40 anos: glicemia, colesterol, pressão, TSH, ferro e vitamina D, o que cada um informa e como se preparar para a consulta médica.

Resumo direto: Depois dos 40, vale conversar com o médico sobre exames que mostram como estão o açúcar no sangue, as gorduras, a pressão, a tireoide, o ferro e a vitamina D. Nem todo exame serve para todas as mulheres, e quem pede é o médico, conforme histórico e risco. A alimentação entra no preparo e no acompanhamento, e isso depende de avaliação individual.
Chegar aos 40 anos costuma coincidir com uma fase de mudanças: o ciclo menstrual pode ficar irregular, o sono piora, a cintura aumenta e a energia oscila. Muitas mulheres chegam ao consultório com uma lista de exames da internet e a dúvida: "preciso fazer todos?". A resposta honesta é que não existe uma lista única, e este texto não pretende ser uma. Ele explica quais exames costumam entrar na conversa, o que cada um informa, como a alimentação se relaciona com eles e o que levar para a consulta médica.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou nutricional. Você não encontrará aqui valores de referência para interpretar o seu resultado, porque interpretar exame é ato do médico, que olha o número junto com a sua história, os seus sintomas e os remédios que você usa. Também não há orientação sobre medicamentos: iniciar, ajustar ou parar qualquer remédio é sempre decisão médica.
Por que os 40 anos pedem uma conversa sobre exames
Uma declaração científica da American Heart Association, de El Khoudary e colaboradores, publicada na revista Circulation, revisou duas décadas de estudos com mulheres acompanhadas ao longo da transição da menopausa. Os autores descrevem alterações desfavoráveis na composição corporal, nos lipídios e lipoproteínas e na saúde dos vasos nesse período, e destacam a transição como uma fase em que o risco cardiovascular acelera, o que reforça a importância de acompanhar a saúde da mulher na meia-idade.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias, publicada em 2025 nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, vai na mesma direção: após a menopausa, a queda do estrogênio promove aumento do LDL-colesterol e dos triglicerídeos, elevando o risco aterosclerótico. A diretriz também registra que a menopausa precoce (antes dos 45 anos, sobretudo antes dos 40) está associada a mais risco de doenças do coração e deve entrar na avaliação de risco. Isso não significa que toda mulher de 40 anos esteja doente. Significa que é um bom momento para olhar com calma os números e a história familiar.
Se você está nessa fase, vale ler também o artigo Alimentação na menopausa: o que comer para músculo e osso e conhecer o trabalho de acompanhamento em saúde da mulher e menopausa.
Exame de sangue para açúcar: glicemia e hemoglobina glicada
A glicemia de jejum e a hemoglobina glicada (HbA1c) são os exames mais usados para investigar pré-diabetes e diabetes. A glicemia mostra o açúcar no momento da coleta; a hemoglobina glicada reflete a média dos últimos meses. Qual deles pedir, e se é preciso repetir ou confirmar, é decisão médica.
A força-tarefa de serviços preventivos dos Estados Unidos (USPSTF), em recomendação de 2021 publicada no JAMA, indica rastrear pré-diabetes e diabetes tipo 2 em adultos de 35 a 70 anos com sobrepeso ou obesidade, sem sintomas, e encaminhar quem tem pré-diabetes para intervenções preventivas eficazes. O documento lembra ainda que o diabetes é a principal causa de insuficiência renal e de novos casos de cegueira em adultos naquele país, o que explica o interesse em detectar cedo. Cada país e cada sociedade médica tem seus próprios critérios, então a idade e a frequência ideais para você dependem do que o seu médico decidir.
Na prática alimentar, esses exames costumam se relacionar com a qualidade dos carboidratos, a regularidade das refeições, as fibras, a proteína e o movimento. Se você quer entender o que está por trás de uma glicemia que preocupa, leia sinais de resistência à insulina e resistência à insulina: o que comer.
Perfil lipídico: colesterol, triglicerídeos e Lp(a)
O lipidograma costuma trazer colesterol total, LDL, HDL, não-HDL e triglicerídeos. Segundo a Diretriz Brasileira de Dislipidemias 2025, o não-HDL é reconhecido como meta coprimária junto ao LDL, sobretudo quando os triglicerídeos estão elevados. A mesma diretriz recomenda a dosagem da lipoproteína(a), a Lp(a), uma vez na vida, quando disponível, para ajudar a estratificar o risco cardiovascular. Segundo a diretriz, a Lp(a) é determinada em grande parte pela genética e não é influenciada por dieta nem por estilo de vida, e é o médico quem decide o que fazer com o resultado.
Uma dúvida frequente é sobre o jejum. A diretriz informa que, para a avaliação inicial, é aceitável colher a amostra sem jejum, em particular em populações selecionadas, e que o laboratório deve registrar no laudo se houve ou não jejum. Se os triglicerídeos estiverem muito elevados numa amostra sem jejum, o médico pode pedir nova coleta em jejum. Por isso, pergunte ao médico ou ao laboratório como se preparar, em vez de decidir sozinha.
Quem usa insulina ou medicamentos da classe das sulfonilureias precisa de atenção redobrada ao jejum: ficar muito tempo sem comer pode causar hipoglicemia (queda do açúcar no sangue), com tremor, suor frio, confusão e fraqueza. Combine antes com o médico como será o dia do exame e leve um lanche para comer logo após a coleta, conforme a orientação recebida. Não mude o horário ou a dose de nenhum remédio por conta própria.
Para o prato, o cuidado com gorduras, fibras e ultraprocessados é tema do acompanhamento em colesterol e fígado gorduroso, e a meta de fibras está em quanta fibra comer por dia.
Pressão arterial: o exame mais simples e mais esquecido
Medir a pressão não exige coleta de sangue, mas é parte central do check-up. A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial 2020 descreve, além da medida no consultório, a avaliação fora dele por meio da monitorização ambulatorial (MAPA) e da medida residencial (MRPA), e lembra que, em pessoas com obesidade, o tamanho do manguito é de importância primordial para a medida correta. Se a sua pressão aparece alterada numa consulta, o médico pode pedir medidas em casa para confirmar. Medir sentada, em repouso, sem ter acabado de subir escada ou tomar café ajuda a não confundir o resultado.
A alimentação participa do cuidado com a pressão por meio do padrão geral do prato e da quantidade de sal e de alimentos industrializados. Ajustes finos dependem de avaliação individual, especialmente quando há uso de remédios para pressão ou problemas nos rins.
Tireoide: TSH
O TSH é o exame que costuma ser pedido quando há cansaço, mudança de peso, alteração do intestino, queda de cabelo ou irregularidade menstrual. É importante saber que nem sempre ele é indicado como rastreamento de rotina. A USPSTF concluiu, em declaração de 2015 nos Annals of Internal Medicine, que a evidência atual é insuficiente para avaliar o equilíbrio entre benefícios e danos do rastreamento de disfunção da tireoide em adultos sem sintomas e sem gravidez. Isso não vale para quem tem sintomas ou histórico: nesses casos, o médico decide. Se o seu TSH vier alterado, o tratamento é médico, e a nutrição acompanha como apoio.
Vitamina D: nem todo mundo precisa dosar
A dosagem de vitamina D virou um dos exames mais pedidos, mas a diretriz da Endocrine Society de 2024, de Demay e colaboradores, no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, sugere não fazer o exame de 25(OH)D de rotina na ausência de indicações estabelecidas. Os autores não encontraram ensaio clínico que sustente o rastreamento na população geral, nem em quem tem obesidade ou pele mais escura, e também não há evidência clara do nível ideal para prevenir doenças. O painel sugere ainda não usar suplementação empírica acima das ingestões de referência para reduzir risco de doença em adultos saudáveis com menos de 75 anos. A mesma diretriz sugere suplementação em grupos específicos, como crianças e adolescentes, gestantes, pessoas com 75 anos ou mais e pré-diabetes de alto risco, e não se aplica a quem tem indicação de tratamento ou de dosagem, como certas doenças ósseas ou de absorção. Quem decide é o médico.
Quanto ao prato, a diretriz comenta que há poucas fontes naturais ricas em vitamina D, e que fortificados e suplementos podem entrar quando há indicação. Sol, alimentos e suplemento devem ser avaliados caso a caso, e dose é sempre prescrita pelo médico.
Ferro e ferritina
A ferritina e o hemograma ajudam a investigar anemia e depósito de ferro, algo relevante para quem tem fluxo menstrual intenso, cansaço persistente, queda de cabelo ou dieta com pouca variedade. A ferritina também pode se alterar em situações de inflamação, e por isso o resultado deve ser lido pelo médico junto com o contexto. Esta seção é qualitativa e não traz limites de ferritina ou de hemoglobina, porque os valores variam entre laboratórios e situações clínicas, e só o médico interpreta. Não use suplemento de ferro por conta própria: excesso também faz mal, e a dose e o tempo de uso são definidos por quem acompanha o seu caso.
Outros exames que o médico pode considerar
Dependendo da sua história, o médico pode incluir exames de função do fígado e dos rins, vitamina B12, exames de rotina da ginecologia (como o preventivo e a mamografia, nas idades e frequências que ele indicar) e, em alguns casos, densitometria óssea. Esta lista é só um ponto de partida para a conversa. Quem decide o que é necessário é o seu médico, e a nutrição trabalha em conjunto com ele.
Como se preparar para a consulta sobre exames
- Anote os sintomas das últimas semanas: cansaço, sono, ciclo menstrual, ondas de calor, mudança de peso, intestino.
- Liste todos os remédios, vitaminas e suplementos que você usa, com os horários.
- Escreva o histórico da família: diabetes, colesterol alto, infarto, AVC, tireoide e idade da menopausa da sua mãe.
- Leve exames antigos para comparar, em ordem de data.
- Pergunte como será o preparo: jejum ou não, horário, o que fazer com os remédios do dia.
Exemplo de um dia alimentar na semana do exame
Este é apenas um exemplo ilustrativo, não é prescrição, de uma rotina em porções caseiras, sem substituir plano individual. A quantidade de ovos e de alimentos ricos em colesterol deve ser individualizada com o profissional, conforme o seu perfil de gorduras no sangue. Se a coleta for em jejum, siga a orientação do médico e do laboratório sobre horário e líquidos.
- Café da manhã: 1 copo pequeno de iogurte natural, 2 colheres de sopa de aveia, 1 fruta média e 1 ovo mexido.
- Lanche da manhã: 1 punhado pequeno de castanhas e 1 fruta.
- Almoço: metade do prato de salada e legumes, 1 concha pequena de feijão, 3 colheres de sopa de arroz ou batata, e 1 filé médio de frango, peixe ou ovos. Uma sugestão de acompanhamento é a salada morna de grão-de-bico.
- Lanche da tarde: 1 pote de iogurte natural com frutas ou 1 fatia de pão integral com queijo branco.
- Jantar: sopa de legumes com proteína, ou omelete com salada.
Perceba que não há nada de extraordinário: o objetivo é regularidade, variedade, fibras e proteína em todas as refeições. Para o exame em si, o mais importante é não mudar a rotina de forma radical na véspera. Cortar tudo de repente pode mascarar o seu padrão habitual, e o médico precisa ver como você realmente está.
Sinais de alerta: quando procurar ajuda
Procure um pronto atendimento ou ligue para o SAMU (192) imediatamente se houver:
- dor ou aperto forte no peito, falta de ar súbita ou suor frio intenso;
- fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, boca torta, dificuldade para falar ou perda súbita da visão;
- dor de cabeça muito intensa e repentina;
- confusão mental, desmaio ou convulsão, inclusive em quem usa insulina ou sulfonilureia e passa muito tempo sem comer (possível hipoglicemia).
Avise o seu médico em breve se você notar:
- sede intensa, urinar muito e emagrecimento sem explicação;
- cansaço persistente, palidez, queda de cabelo ou sangramento menstrual muito intenso;
- palpitações frequentes, inchaço nas pernas ou pressão alta nas medidas em casa;
- mudanças no ciclo, calorões intensos ou sono muito prejudicado;
- tremores, suor frio e fome súbita, mesmo que passem logo, em quem usa remédios para diabetes.
Como a nutrição ajuda nesse processo
O papel da nutrição aqui é traduzir o que o médico pediu em rotina: organizar refeições, aumentar fibras e proteína, ajustar o jeito de comer à sua realidade e acompanhar a evolução. Se você quer conhecer mais sobre o calculadoras e ferramentas do site, elas ajudam a ter uma ideia geral, sem substituir avaliação.
Referências
- El Khoudary SR, Aggarwal B, Beckie TM, et al. Menopause transition and cardiovascular disease risk: implications for timing of early prevention. A scientific statement from the American Heart Association. Circulation, 2020. PubMed.
- Rached FH, Miname MH, Rocha VZ, et al. Brazilian Guideline on Dyslipidemias and Prevention of Atherosclerosis, 2025. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2025. PubMed.
- US Preventive Services Task Force, Davidson KW, Barry MJ, et al. Screening for prediabetes and type 2 diabetes: US Preventive Services Task Force recommendation statement. JAMA, 2021. PubMed.
- Barroso WKS, Rodrigues CIS, Bortolotto LA, et al. Brazilian Guidelines of Hypertension, 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, 2021. PubMed.
- Demay MB, Pittas AG, Bikle DD, et al. Vitamin D for the prevention of disease: an Endocrine Society clinical practice guideline. Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2024. PubMed.
- LeFevre ML, US Preventive Services Task Force. Screening for thyroid dysfunction: US Preventive Services Task Force recommendation statement. Annals of Internal Medicine, 2015. PubMed.
Quer um plano alimentar pensado para o seu caso, levando em conta os exames que o seu médico pediu? Agende uma teleconsulta e receba o plano na área do paciente, em até 7 dias (ou até 15 dias se precisar fazer exames). Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou nutricional.
Agendar teleconsultaVinícius Graton · CRN-9 9877
Perguntas frequentes
Toda mulher acima de 40 anos precisa fazer todos esses exames?
Não. A lista depende da idade, do histórico, dos sintomas e do que o médico considerar adequado. O texto serve para chegar à consulta com perguntas melhores, não para pedir exames por conta própria.
Preciso fazer jejum para o exame de colesterol?
Depende. A diretriz brasileira de 2025 aceita amostra sem jejum na avaliação inicial, mas o médico pode pedir jejum em situações específicas. Pergunte ao médico ou ao laboratório como se preparar.
Vale dosar a vitamina D todo ano?
A Endocrine Society sugere não dosar de rotina quando não há indicação estabelecida. Se existe doença óssea, de absorção ou outro motivo, o médico avalia a necessidade.
O que é Lp(a) e por que se fala tanto dela?
É uma partícula de gordura no sangue, muito ligada à genética. A diretriz brasileira de 2025 recomenda dosá-la uma vez na vida, quando disponível. O que fazer com o resultado é decisão do médico.
A alimentação muda o resultado dos exames?
Em muitos casos pode influenciar ao longo de semanas ou meses, mas varia de pessoa para pessoa e nem todo valor responde ao prato, como a Lp(a). Não há promessa de resultado.
Posso levar o resultado para o nutricionista?
Pode e deve. O nutricionista usa os exames pedidos pelo médico como parte da avaliação, sem substituir a interpretação médica nem alterar tratamento.