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Diretriz ABESO 2026 e obesidade como doença crônica

Diretriz ABESO 2026 e obesidade como doença crônica: o que a ABESO e consensos recentes dizem sobre IMC, estigma e o papel da nutrição no cuidado.

Vinícius Graton · CRN-9 9877Publicado em · 12 min de leituraConteúdo informativo, escrito por nutricionista.
Prato equilibrado com peixe grelhado, salada colorida, feijão e arroz, visto de cima sobre mesa de madeira

Resumo: a obesidade é descrita pela ABESO como doença crônica, e consensos recentes defendem avaliar mais do que o IMC isolado, com menos culpa e mais estratégia. A nutrição entra como parte de um plano com o médico e outros profissionais. O que cabe a cada pessoa depende de avaliação individual.

Toda vez que uma diretriz nova sobre obesidade ganha as manchetes, surgem as mesmas dúvidas: o que mudou, o que isso significa para mim e se o jeito de comer vai ter de mudar. Este texto organiza o que dá para afirmar com segurança a partir de documentos que foram lidos na fonte, explica o que é ainda incerto e mostra como a alimentação se encaixa no cuidado.

Uma observação de transparência antes de continuar. O portal da Diretriz ABESO 2026 é organizado por áreas de cuidado, e o capítulo que estava disponível na consulta feita para este artigo é o de obesidade pediátrica; os capítulos de adultos e de nutrição aparecem como "em breve", e o acesso ao conteúdo é restrito a profissionais de saúde. Por isso, este artigo não atribui à diretriz de 2026 números ou recomendações que não foram lidos nela. As ideias centrais abaixo vêm de documentos anteriores da própria ABESO, da Comissão publicada no The Lancet Diabetes & Endocrinology em 2025 e de outros consensos, todos abertos e conferidos. Conteúdo informativo, que não substitui consulta médica ou nutricional.

Obesidade como doença crônica: o que isso quer dizer

Chamar a obesidade de doença crônica não é um rótulo para assustar. É uma forma de dizer que se trata de uma condição de longa duração, com causas múltiplas, que pede acompanhamento contínuo, como acontece com a hipertensão ou o diabetes. O posicionamento da ABESO sobre tratamento nutricional descreve a obesidade como uma doença crônica, progressiva, de causas multifatoriais. Já o documento de atualização de 2024 da ABESO e da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) a descreve como doença crônica e recorrente, e afirma que tratar a obesidade é muito mais do que "emagrecer", incluindo a manutenção do peso perdido e os benefícios para além da balança.

Uma diretriz suíça de prática clínica publicada em 2026 segue a mesma linha: descreve a obesidade como doença crônica, recorrente e multifatorial e orienta que a avaliação e o cuidado mirem a saúde geral, a resolução de comorbidades e os ganhos funcionais, e não apenas a perda numérica de peso.

A World Obesity Federation já havia publicado, em 2017, uma tomada de posição nesse sentido: a obesidade como processo de doença crônico, com recaídas e progressivo, em que fatores genéticos, ambiente com muita comida de alta densidade de energia e pouco movimento interagem. A palavra "recidivante" ou "recorrente" tem uma consequência prática importante: voltar a ganhar peso depois de perder não é, por si só, prova de falta de força de vontade. Faz parte do comportamento da condição: uma revisão sobre manutenção do peso perdido descreve que as intervenções costumam levar a perda de peso inicial, seguida de platô e reganho progressivo, e que o tratamento exige atenção clínica contínua e orientação específica para a manutenção. Por isso o cuidado precisa prever essa fase desde o começo. Sobre esse ponto específico, veja também o texto sobre como lidar com o risco de reganho de peso.

Além do IMC: o que a Comissão do Lancet propôs

O índice de massa corporal (IMC) continua útil para triagem e para estudos populacionais, mas tem limites claros. A Comissão sobre obesidade clínica, formada por 58 especialistas de várias especialidades e países, com participação de pessoas que vivem com obesidade, afirma que medidas baseadas só no IMC podem tanto subestimar quanto superestimar a gordura corporal e dão pouca informação sobre a saúde de cada indivíduo.

A proposta da Comissão, publicada em 2025, separa duas situações:

  • Obesidade pré-clínica: excesso de gordura com órgãos e tecidos funcionando normalmente, em que há risco aumentado de adoecer e indicação de aconselhamento, monitoramento e, quando cabível, intervenção para reduzir esse risco;
  • Obesidade clínica: doença crônica e sistêmica, em que o excesso de gordura já altera a função de órgãos, de tecidos ou do corpo como um todo, ou limita de forma importante atividades do dia a dia, como se mover, tomar banho ou se vestir.

Para confirmar excesso de gordura, a Comissão recomenda medir a gordura corporal diretamente, quando disponível, ou usar pelo menos um critério de medida do corpo (como circunferência da cintura, relação cintura-quadril ou relação cintura-altura) além do IMC. Em pessoas com IMC acima de 40 kg/m², o excesso de gordura pode ser presumido sem confirmação extra. A diretriz suíça de 2026 vai na mesma direção, ao recomendar integrar a circunferência da cintura e a análise da composição corporal ao IMC, já que o IMC sozinho pode não captar todo o risco cardiometabólico. A conclusão central da Comissão é que o IMC deveria ser usado como indicador de risco em nível populacional e de triagem, e não como medida isolada da saúde de uma pessoa.

Na prática de consultório, isso significa que duas pessoas com o mesmo IMC podem ter necessidades diferentes, e que quem está "dentro do peso" nem sempre está livre de risco. Quem decide o diagnóstico e a conduta é o médico; o nutricionista contribui com avaliação do consumo alimentar, da composição corporal quando o método está disponível, dos hábitos e do contexto de vida.

Menos culpa, mais estratégia

O consenso internacional publicado na Nature Medicine em 2020 reuniu especialistas e organizações científicas e concluiu que o estigma do peso é generalizado, aparece inclusive em serviços de saúde, pode causar dano físico e psicológico e faz com que pessoas com obesidade tenham menos chance de receber cuidado adequado. O documento recomenda formar uma nova narrativa pública, coerente com o conhecimento científico atual. A Comissão do Lancet segue a mesma linha ao pedir que as estratégias de saúde pública se baseiem em evidências e não em suposições que atribuem a obesidade apenas à responsabilidade individual. O documento ABESO e SBEM de 2024 também destaca a importância da linguagem para reduzir o estigma.

O que isso muda no dia a dia de quem está se cuidando?

  • Troca-se a pergunta. Em vez de "por que eu não consigo?", a pergunta passa a ser "que estratégia combina com a minha rotina, o meu sono, o meu orçamento e o meu tratamento?";
  • Evita-se o ciclo de dietas muito restritivas. Planos que dependem de passar fome tendem a ser difíceis de sustentar, e a experiência de "fracassar" alimenta a culpa;
  • Mede-se mais do que o peso. Exames, pressão, circunferência da cintura, força, disposição, sono e qualidade de vida contam como resultado;
  • Planeja-se a manutenção. Se a condição é crônica, a fase de manutenção faz parte do tratamento e não é um "prêmio" para depois.

Onde entra a terapia nutricional

Os documentos da ABESO tratam a alimentação como parte do cuidado, e não como o único ponto. O posicionamento nutricional da entidade foi elaborado pelo departamento de nutrição da associação com nutricionistas de pesquisa e clínica, e aborda estratégias alimentares para o manejo do sobrepeso e da obesidade. Já o texto de 2024 mostra que o tratamento da obesidade envolve outras frentes, entre elas o tratamento medicamentoso, que é prescrito e acompanhado pelo médico.

A diretriz suíça de 2026 descreve a base do cuidado como uma intervenção de estilo de vida em várias frentes: terapia nutricional que favorece dietas pouco processadas e ricas em nutrientes, plano de atividade física individualizado que inclui treino de força e estratégias comportamentais, como a terapia cognitivo-comportamental, para a alimentação emocional. Para pessoas idosas, o documento prioriza preservar massa muscular e saúde dos ossos mais do que a perda de peso em si.

Num plano multiprofissional, as tarefas costumam se dividir assim:

  • Médico: diagnóstico, exames, avaliação de complicações, decisão sobre medicamentos, doses e eventuais ajustes;
  • Nutricionista: plano alimentar individual, ajuste de proteínas, fibras e porções, estratégias para fome e saciedade, apoio à manutenção, adaptação à rotina e ao orçamento;
  • Profissional de educação física: treino de força e atividade aeróbica adequados à condição de cada pessoa;
  • Psicólogo, quando indicado: comportamento alimentar, ansiedade, compulsão e estigma internalizado.

Quem usa medicamento para obesidade prescrito pelo médico costuma ter apetite menor, e isso exige atenção à qualidade do que se come em porções pequenas. Se esse é o seu caso, vale ler o guia sobre o que comer com caneta emagrecedora e o texto sobre quanta proteína comer. A indicação, a dose e a decisão de manter ou suspender o medicamento são sempre do seu médico.

Princípios práticos que valem em qualquer plano

Sem substituir uma avaliação individual, alguns princípios aparecem de forma consistente nos materiais de nutrição e são úteis como ponto de partida para conversar com o seu nutricionista:

  • Prato com base em comida de verdade: legumes, verduras, frutas, feijões, ovos, carnes magras, peixes, leite e derivados, arroz e outros cereais, com poucos ultraprocessados;
  • Proteína distribuída nas refeições, o que ajuda na saciedade e na preservação da massa muscular, principalmente se houver perda de peso;
  • Fibras todos os dias, vindas de legumes, verduras, frutas com casca, leguminosas e grãos integrais;
  • Hidratação: água ao longo do dia, ajustada se houver restrição orientada pelo médico;
  • Regularidade: horários mais ou menos fixos reduzem os "beliscos" por fome acumulada;
  • Sono e movimento: dormir bem e incluir treino de força e caminhadas fazem parte do plano, não são extras.

Para uma visão geral, leia também o que comer para emagrecer com saúde.

Exemplo de um dia alimentar (modelo ilustrativo)

Este é um exemplo genérico, com porções caseiras, para ilustrar a lógica de um dia equilibrado. Ele não é prescrição: as quantidades, a necessidade de proteína e de energia e as adaptações para doenças ou medicamentos dependem de avaliação individual.

  • Café da manhã: 1 pão integral ou 3 colheres de sopa de aveia, 2 ovos mexidos ou 1 fatia de queijo branco, 1 fruta e café ou chá sem açúcar;
  • Lanche da manhã: 1 iogurte natural com 1 colher de sopa de chia ou 1 fruta pequena com um punhado de castanhas;
  • Almoço: metade do prato de salada e legumes, 1 concha de feijão, 3 a 4 colheres de sopa de arroz, 1 filé médio de frango, peixe ou carne magra e 1 fio de azeite;
  • Lanche da tarde: 1 fruta com 1 fatia de queijo ou 1 copo de leite ou bebida vegetal, ou ainda uma panqueca de banana e aveia;
  • Jantar: opção como frango desfiado com ervas, legumes refogados e uma porção pequena de carboidrato, como batata cozida ou arroz;
  • Ceia, se houver fome: 1 copo de leite morno ou 1 iogurte natural.

Quem usa medicamento que reduz o apetite pode precisar de porções menores e de mais refeições pequenas; quem tem diabetes, doença renal, doença no fígado ou outras condições precisa de adaptação individual. Veja também a página de ferramentas, e o acompanhamento para emagrecimento detalha o plano para o seu caso.

O que ainda é incerto

  • O texto completo da diretriz de 2026 para adultos e para nutrição não estava disponível ao público na consulta feita; portanto, critérios específicos de início de tratamento e metas de perda de peso devem ser conferidos com o seu médico, que tem acesso ao documento;
  • A adoção dos critérios da Comissão do Lancet na rotina do sistema de saúde brasileiro ainda é um processo; o consenso foi publicado em 2025 e a incorporação em protocolos leva tempo;
  • Cada pessoa responde de um jeito a alimentação, ao treino e aos medicamentos, e nenhum documento geral prevê o que acontecerá com você.

Sinais de alerta: quando procurar ajuda

Procure um pronto atendimento ou ligue para o SAMU (192) se houver:

  • dor forte no peito, falta de ar intensa ou desmaio;
  • fraqueza de um lado do corpo, fala arrastada ou rosto torto;
  • vômitos que não param, dor abdominal intensa ou sinais de desidratação, como boca muito seca, tontura e pouca urina;
  • confusão mental, suor frio, tremores intensos ou sonolência importante, em especial em quem usa insulina ou medicamento para diabetes (possível hipoglicemia).

Avise o seu médico, em consulta ou por contato do consultório, se notar:

  • ganho de peso rápido, inchaço nas pernas, cansaço novo ou piora de dor nas articulações;
  • pressão ou glicemia fora do esperado;
  • perda de peso rápida demais, fraqueza ou queda de cabelo importante;
  • sinais de compulsão alimentar, tristeza persistente, ansiedade com a comida ou pensamentos de se punir;
  • qualquer dúvida sobre o seu medicamento, que não deve ser alterado por conta própria.

Atenção em quem tem diabetes: quem usa insulina ou sulfonilureia pode ter hipoglicemia (queda do açúcar no sangue) ao pular refeições, fazer jejum, seguir dieta muito restritiva ou ao usar medicamentos que reduzem o apetite. Sintomas como tremor, suor frio, fome súbita, tontura e confusão devem ser avaliados com urgência. Qualquer ajuste de medicamento é uma decisão do seu médico; não mude doses por conta própria.

Referências

  1. Rubino F, Cummings DE, Eckel RH, Cohen RV et al. Definition and diagnostic criteria of clinical obesity. The Lancet Diabetes & Endocrinology, 2025. PubMed.
  2. Bray GA, Kim KK, Wilding JPH; World Obesity Federation. Obesity: a chronic relapsing progressive disease process. A position statement of the World Obesity Federation. Obesity Reviews, 2017. PubMed.
  3. Rubino F, Puhl RM, Cummings DE, Eckel RH et al. Joint international consensus statement for ending stigma of obesity. Nature Medicine, 2020. PubMed.
  4. Gerber PA, Collet TH, Favre L, Bueter M et al. Swiss obesity clinical practice guidance. Swiss Medical Weekly, 2026. PubMed.
  5. Hall KD, Kahan S. Maintenance of lost weight and long-term management of obesity. Medical Clinics of North America, 2018. PubMed.
  6. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Posicionamento sobre o tratamento nutricional do sobrepeso e da obesidade. ABESO, 2022. Documento da ABESO.
  7. ABESO e Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Tratamento farmacológico do indivíduo adulto com obesidade e seu impacto nas comorbidades: atualização 2024 e posicionamento de especialistas. Editora Clannad, 2024. Documento da ABESO.
  8. ABESO. Diretriz ABESO 2026 (portal de diretrizes, com o capítulo de obesidade pediátrica; capítulos de adultos e de nutrição indicados como em breve). Portal da diretriz.

Quer entender como organizar a sua alimentação dentro do plano definido com o seu médico? Agende uma teleconsulta e receba o plano na área do paciente, em até 7 dias (ou até 15 dias se precisar fazer exames). Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica ou nutricional.

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Vinícius Graton · CRN-9 9877

Perguntas frequentes

A obesidade é mesmo uma doença?

A ABESO descreve a obesidade como doença crônica, e a Comissão do Lancet de 2025 propõe o termo obesidade clínica para os casos em que o excesso de gordura já compromete órgãos, tecidos ou atividades do dia a dia. O diagnóstico e a conduta dependem de avaliação médica individual.

O IMC deixou de valer?

Não. O consenso recomenda usar o IMC como triagem e indicador populacional e confirmar o excesso de gordura com medidas adicionais, como circunferência da cintura ou relação cintura-altura. A interpretação no seu caso depende de avaliação individual.

Se a obesidade é crônica, adianta me cuidar?

Sim. Doença crônica significa cuidado contínuo, como na hipertensão. Melhorar hábitos, exames, força e qualidade de vida traz benefícios mesmo quando o peso oscila, e o resultado depende de avaliação individual.

A nutrição sozinha resolve?

Ela é parte importante, mas os documentos descrevem um cuidado em várias frentes: avaliação médica, alimentação, movimento, apoio psicológico quando indicado e, em alguns casos, medicamentos prescritos pelo médico.

Posso começar ou suspender medicamento por causa de uma diretriz?

Não. Indicação, dose, troca e suspensão são decisões exclusivas do seu médico. O nutricionista adapta a alimentação ao plano definido por ele.

Como saber em qual critério eu me encaixo?

É preciso avaliação individual, com medidas do corpo, exames, histórico de saúde e o efeito do excesso de gordura no seu dia a dia. Converse com o seu médico e com o seu nutricionista.

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